sábado, 31 de janeiro de 2009

Felicidade

Quando estamos fazendo uma pesquisa as questões metodológicas tornam-se uma obsessão até mesmo em nossas leituras cotidianas. Eu, pelo menos, ando assim (há muitos anos). Até para ler um romance tenho um lápis na mão.

Neste meu espaço de leituras para o lazer estive lendo um livro, maravilhoso, do Eduardo Giannetti*, chamado Felicidade. Numa das partes do seu ensaio filosófico, Giannetti trata de dois aspectos importantes relativos ao método científico: a confiabilidade das respostas dos pesquisados e as restrições das possibilidades de medida em pesquisas sociais.

Falando especificamente de questionários e enquetes de opinião, o autor revela, pelo debate de seus quatro personagens, a polêmica inerente ao uso deste tipo de instrumento de pesquisa (p. 70-73). Melo, um dos protagonistas do ensaio, adverte: "Pergunte-se a si próprio se você é feliz, e você deixa de sê-lo. Ou como diria o nosso Fernando Pessoa, 'por que é que, para ser feliz, é preciso não sabê-lo?' ". Mais adiante Melo ainda complementa: "Mas você não acha que o simples fato de se perguntar a alguém se está feliz ou satisfeito com sua vida já não acaba alterando e interferindo na resposta?"

Otto, o outro interlocutor do debate inventado por Giannetti, pondera: "As respostas são confiáveis? O que as pessoas dizem sobre o que sentem acerca de suas vidas corresponde a um fenômeno real, a alguma coisa sobre a qual podemos fazer inferências válidas sobre o mundo? Com toda a franqueza, não sei. E também ficaria muito desconfiado se alguém alegasse saber. O problema maoir, creio, não é uma improvável falta de sinceridade nas respostas. Não há razões para mentir em pesquisas de opinião nas quais não se identifica pelo nome o entrevistado. As reais dificuldades são de ordem cognitiva e de comunicação. (...) Há um trabalho magnífico** que demonstra como até mesmo a sequência específica das perguntas feitas num questionário pode alterar o teor das respostas.(...) A questão da confiabilidade, concordo, é um vespeiro. Mas nem tudo está perdido. Parte dos problemas a lei dos grande números resolve. (...) O mais importante, entretando, é que as evidências de bem-estar subjetivo baseada em respostas individuais sobreviveram a numerosos testes de validação. As pessoas que se declaram "muito felizes" nas pesquisas possuem atributos observáveis que podem ser tomados como indicativos de felicidade: elas tendem a ser classificadas como felizes por seus parentes e amigos; sorriem com maior frequência; têm maior propensão a renovar contatos sociais com amigos; faltam menos ao trabalho; apresentam menor incidência de sintomas físicos associados a estresse e têm menor probabilidade de morte prematura ou de cometer suicídio. Tudo isso está longe de ser uma prova conclusiva de que as respostas obtidas refletem o verdadeiro grau de felicidade das pessoas, mas creio que é uma boa primeira aproximação da questão. O fato de a felicidade ser uma experiência subjetiva não significa que nós não devamos buscar a máxima objetividade possível na tentativa de compreendê-la."

Alex rebate: "Mas você há de convir que, por mais que se avance no caminho da objetividade, exitem obstáculos intrasponíveis no percurso... Até onde se pode chegar por essa via?"

O debate, aqui reproduzido apenas em alguns trechos, não chega a qualquer conclusão, como era de se esperar. Mas achei interessante destacá-lo, constitui nosso eterno dilema, a confiabilidade de uma pesquisa é ameaçada quando o método é irremediavelmente impregnado pela subjetividade do pesquisador e do pesquisado?

Quando eu encontrar a minha-subjetiva-resposta, prometo contar!

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Referência:

* Giannetti, Eduardo. Felicidade : diálogos sobre o bem-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

** Schwarz, N.; Strack, F. Reports of subjective well-being: judgmental processes and their methodological implications. In: Kahneman, D. et al. (Ed.). Well-being. Nova York, 1999

domingo, 25 de janeiro de 2009

Dicas para realização de uma pesquisa

Esta é a primeira postagem de uma possível série intitulada "Dicas para realização de uma pesquisa...". Desde já esclareço que não estou em condições de fornecer qualquer dica, a postagem reflete apenas meu empenho (e talvez desespero) em buscá-la. Atualmente, me encontro perante uma prateleira cheia de livros "semi-lidos" (como se isso fizesse algum sentido) e de suas respectivas "semi-fichas" (idem). Ou seja, vivo num caos físico e mental!

Estou lendo um livro sobre metodologia da pesquisa escrito por Bruno Deshaies* que achei interessante exatamente por trazer uma lista de procedimentos saudáveis a serem seguidos para evitar o que estou passando (p. 36). São eles:

1º Zelar por estabelecer à partida uma boa classificação de suas notas
2º Procurar conservar apenas o essencial e recorrer ao acessório à medidas das necessidades
3º Reflectir sobre o objecto de "sua" pesquisa
4º Determinar os meios convenientes para efectuar sua pesquisa
5º Concentrar-se no objetivo ou na finalidade do trabalho a levar a cabo para não o perder de vista
6º Ter em conta o seu leitor
7º Aprender a sentir satisfação no trabalho e por meio dele

Como em todo o manual, o texto foi escrito sob uma aura de "receita de bolo" fácil de replicar. Contudo, cá para nós, sabemos que neste nosso negócio as coisas não funcionam bem assim. Não sei se quando alguém começa sua pesquisa com os procedimentos acima em mente tem um início mais feliz do que o meu... o certo é que, depois dos percalços, estou recitando os enumerados de Deshaies como um mantra e, com disciplina, tentarei seguí-los para transformar os semi em leituras e fichas (Ah, disciplina: o desafio dos ansiosos!).

Afora o desabafo, gostaria apenas de destacar uma outra citação do próprio Deshaies (p. 25) que associo ao último e imprescindível item da lista, "aprender a sentir satisfação no trabalho e por meio dele". Me parece que a requerida satisfação relaciona-se com a escolha de um tema que nos seja caro, considerando que: "Quando nos colocamos na posição de investigar, começamos por dispor das nossas próprias inclinações intelectuais, cognitivas, afectivas e outras. Por outras palavras, a investigação exige uma participação íntima e pessoal no processo de conhecimento. Faz apelo a um investimento indispensável da própria pessoa."

Era isso: dicas de pesquisa e devaneios
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Referência:

* Deshaies, Bruno. Baptista, Luisa. Metodologia da investigacao em ciencias humanas. Lisboa: Instituto Piaget, c1992. 456 p. : il. (Epistemologia e sociedade ; 65)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Sociedade de esquina

Recentemente li o apêndice metodológico do clássico estudo de caso realizado por William Foote White, entre 1936 e 1940, intiluado "Sociedade de esquina". Infelizmente, ainda não tive tempo de ler a obra por inteiro, mas o apêndice é simplesmente maravilhoso. Um dos aspectos tratados pelo autor que achei particularmente interessante é o relacionamento do pesquisador com a comunidade quando a coleta de dados é realizada com a técnica de observação participante. Tentarei aqui, presuçosamente, resumir algumas questões levantadas por White sobre este tema:

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As pessoas pesquisadas manifestam interesse pelas atividades do pesquisador, querem saber se seu comportamento será estudado ou julgado. O pesquisador deve tentar demonstrar a sinceridade de seu interesse e o empenho na busca para realização do melhor. As explicações devem ser compatíveis com o nível de compreensão e interesse demonstrado pelos pesquisados, sendo suficientemente satisfatórias para estimular a colaboração.

Todavia, especificamente as informações fornecidas às pessoas-chave da comunidade são determinantes para o entendimento e apoio geral. As bases nas quais o relacionamento com o(s) informante(s) se estabelece é fundamental para o desenrolar dos procedimentos de coleta de dados. Um informante adequadamente instruído sobre as necessidades do estudo é capaz de dar contribuições qualificadas e indicar os meios pelos quais informações importantes podem ser obtidas.

Um cuidado adicional deve ser dado ao respeito às convenções sociais que regem uma comunidade. O pesquisador precisa se adaptar aos costumes locais sob pena de chamar ainda mais atenção para si do que o desejável ou de sofrer algum tipo de rejeição. Entretanto, as pessoas estudadas também compreendem que o pesquisador não é exatamente igual a elas e, muitas vezes, a própria diferença desperta o interesse dos pesquisados pelo estudo. Assim, a aculturação total não necessariamente é um requisito a ser perseguido.

A insegurança do pesquisador quanto à sua aceitação no campo e a necessidade de concentração permanente nos períodos de observação e entrevista são a principal fonte de desgaste na fase de coleta de dados. Whyte relata que somente sentiu que havia encontrado seu lugar na comunidade quando passou a ser cumprimentado de forma natural e amigável.

Sobre a proficiência do pesquisador nas técnicas de coleta de dados, Whyte enfatiza a habilidade de observar as pessoas em ação e escrever um relatório detalhado sobre os comportamentos concretos, isento de julgamentos morais.

Por seu turno, quando conduz as entrevistas, o pesquisador não pode incorrer em discussões com os entrevistados ou insinuar oposição aos comportamentos manifestos. Ao contrário, a postura que indica uma aceitação interessada constitui uma prática esperada.

Além do momento de perguntar, o pesquisador deve saber identificar a hora de calar. Uma questão colocada em um instante inoportuno pode colocar a perder todo o conjunto de contribuições que um entrevistado poderia fornecer. Quando a coleta de dados é feita com entrevistas associadas à observação, por exemplo, há ainda a possibilidade de que as respostas surjam naturalmente das atividades cotidianas, dispensando a manifestação explícita da questão.
No que tange à observação, o pesquisador deve ser particularmente cuidadoso nos seus modos de interação com o grupo, buscando uma interação que não influencie o comportamento da comunidade.

A permanência prolongada no campo possibilita o acompanhamento das mudanças que corriqueiramente incidem sobre os fenômenos sociais. Contudo, se no princípio o pesquisador enfrenta dificuldade para se tornar um observador participante, ao final do processo ele pode se tornar um participante não observador.
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Referência:

WHYTE, William Foote. Sobre a evolução de Sociedade de Esquina. In: ______. Sociedade de esquina : a estrutura social de uma área urbana pobre e degradada. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. p. 283-263.
[Indicação da Profa. Cinara Rosenfield na disciplina "Metodologia da pesquisa II" do PPG em Sociologia da UFRGS

Sugestão:

Leiam o apêndice, o texto é ótimo e o relato precioso para quem precisa realizar qualquer tipo de pesquisa!

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Aventuras qualitativas

Concomitantemente com a disciplina de estatística, resolvi fazer um curso de métodos qualitativos de pesquisa. No início, encarei as aulas como uma experiência adicional. Ledo engano!  Tudo mudou... As idas a campo propostas pelo professor como atividade para realização do trabalho final transformaram minhas perspectivas de pesquisa. Fiquei fascinada pelas novas possibilidades de investigação ao conhecer um pouquiiiiiiiiinho os métodos qualitativos, os tipos de problemas passíveis de formulação, os desafios inerentes à entrevista (por exemplo) como técnica de coleta de dados e a complexidade a ser enfrentada no momento de análise dos resultados. Francamente, nunca pensei que isso pudesse acontecer. Na realidade, a principal lição que aprendi deste episódio é a de que devemos estar abertos a novas experiências, aproveitando principalmente a fase em que somos estudantes. Percebi que minhas convicções estavam relacionadas com falta de auto-conhecimento e ignorância arraigada. Não sei se conseguirei avançar em minhas aventuras nos meandros dos métodos qualitativos... Vontade não me falta! Como na postagem anterior, termino dizendo: continuo estudando. Vamos ver no que dá!

sábado, 6 de setembro de 2008

Desventuras estatísticas

No início deste ano, quando comecei as primeiras disciplinas, fiz um ótimo curso de estatística. Além de aprender muito (contestando algumas escolhas que fiz na dissertação), pela primeira vez coloquei em dúvida minha preferência pelas metodologias quantitativas. Compreendi melhor a subjetividade inerente à estatística, muitas vezes visível apenas para seus grandes conhecedores. Não que a objetividade seja uma pretensão minha, se o fosse, o blog perderia as "epistemologias" e ficaria apenas com os "devaneios". Mas, de qualquer modo, uma questão me fez refletir: tenho plena consciência do nível de subjetividade imbuído nas técncias estatísticas que precisarei utilizar? Para buscar esta resposta resolvi estudar mais, tanto os métodos quantitativos, quanto os qualitativos, ilustres desconhecidos para mim. Nessas andanças, em outra disciplina, acabei por topar com as técnicas qualitativas de coleta de dados, mas isso, é outra história...